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Porque grandes histórias mudam o mundo

Escolhemos todos os meses leituras que nos fazem refletir, que nos ensinam, divirtem mas, acima de tudo, que elevam as vozes das mulheres. Acreditamos no poder dos livros para nos ensinar sobre o mundo através das histórias.

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Os livros de agosto


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As Revolucionárias

não-ficção histórica / autora portuguesa

E a autora portuguesa deste mês é a Maria João Lopo de Carvalho, uma das escritoras portuguesas que mais admiro, tendo lido praticamente todos os seus romances históricos ao longo dos anos e da minha formação enquanto leitora e escritora. Como em Agosto queria trazer algo diferente em português, pensei logo que este As Revolucionárias seria perfeito por proporcionar uma experiência de leitura diferente: podem ler cada uma das histórias e depois ouvir cada episódio do podcast (chama-se As Desobedientes porque já havia outro podcast chamado As Revolucionárias) que foi feito em colaboração com o Observador e com a atriz Margarida Vila-Nova, o escritor Alexandre Borges e a própria Maria João. Eu não diria que este é um livro para se ler todo de seguida, mas um para se ir lendo (eu própria ainda não li todas as histórias), para conhecer as vidas de doze mulheres portuguesas que fizeram história e que tiveram a coragem de desafiar as normas do nosso país em tempos difíceis onde as mulheres eram confinadas ao domínio da casa, do silêncio e da invisibilidade, foram portanto desobedientes do estereótipo feminino e fizeram avançar o nosso país para o lugar que hoje conhecemos e ocupamos. São 12 histórias de mulheres, que atravessam o século XIX e o início do XX, da Monarquia, à República, ao Estado Novo, e que se mantiveram firmes na luta por uma causa, a causa de todas nós. Cada capítulo não é apenas uma biografia, mas uma coleção de memórias, episódios, momentos de coragem e solidariedade que a Maria João tão bem nos narra, como diz a sinopse, com rigor histórico e encantamento revolucionário. É um livro perfeito também para oferecer, para inspirar, para reler quando precisamos de nos lembrar da coragem que achamos que não temos.

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Maria João Lopo de Carvalho (1962) é uma das escritoras mais prolíficas em Portugal, com mais de 200 mil livros vendidos. Começou como professora, cronista de revistas nos anos 90 e em 2000 iniciou-se nos romances e nos livros infantis e juvenis, em parceria com o Instituto Camões. Em 2011 publicou o seu primeiro romance histórico Marquesa de Alorna (que terá uma série no fim deste ano), o que deu início a uma consistente carreira de romancista histórica. 
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AUTOGRAFADO

A Verdade sobre Ruby Cooper

contemporâneo / psicológico / autora residente no Book Gang

Da autora de A Estranha Sally Diamond (votado para o Top5 de favoritos de 2024) e de Espera Silenciosa, Liz Nugent regressa com um thriller psicológico retorcido e personagens complexas e moralmente ambíguas, daquelas que nos prendem até ao fim para sabermos até onde irão. Esta história é centrada principalmente nas irmãs Cooper desde a infância e na relação entre as duas que mistura amor, ressentimento, ciúmes e anos de distância emocional. É difícil falar-vos da história sem dar nenhum spoiler, mas cá vai: a família Cooper vive uma vida familiar e social feliz e idílica durante a infância das irmãs, até que uma situação com a Ruby vai desmoronar toda a família — Ruby e a mãe mudam-se para a Irlanda, a terra da mãe, e o pai, que se recusa a abandonar a carreira e a comunidade que criou, fica nos EUA com Erin, que acaba por lidar com o trauma do que aconteceu sozinha, trauma esse que irá moldar toda a sua vida adulta. À medida que os anos passam, acompanhamos a vida destas irmãs à distância e o ressentimento que aumenta entre as duas. E apesar delas serem muito jovens quando aquela tragédia acontece, como se perdoa uma coisa que tem um efeito dominó que se irá propagar por várias vidas e deixar um rasto de destruição? Odiei uma das irmãs, não vos vou dizer qual, no fim saberão qual foi porque creio que irão sentir o mesmo que eu, um ódio profundo. É um livro que nos incomoda, que nos deixa envolvidas na leitura até ao fim, frustradas e perturbadas, aborda também temas pesados, mas com um enredo cativante e que levanta questões morais e nos obriga a perguntar o que faríamos no lugar delas. Uma leitura sombria, inteligente, inquietante e viciante. Liz Nugent nunca desilude!

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Liz Nugent (1967) nasceu em Dublin e começou a escrever para telenovelas na televisão e depois para programas infantis. Em 2014 publicou o seu primeiro livro que se tornou um sucesso e ganhou o Crime Novel of the Year nos Irish Book Awards e foi nomeado para o International Dublin Literature Prize 2016. A partir daqui, Liz tornou-se uma das mais relevantes escritoras na Irlanda, todos os seus livros entram no primeiro lugar no top de vendas e em 2021 ganhou a James Joyce Medal pelo seu trabalho na literatura. Este é o seu tão antecipado novo thriller psicológico.
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Campo de Papoilas

contemporâneo / autora Book Gang

Da autora de A Medida (um dos meus livros favoritos em 2023), estava muito expectante em ler este novo trabalho dela e foi uma viagem muito boa. Tal como a autora já tinha feito em A Medida, também aqui nos abre a mente com diferentes ideias sobre a vida, o universo, o luto, a dor e as autorreflexões a que isso dá origem, mas neste novo livro apresenta-nos outra questão: e se pudéssemos entrar num sono profundo após um luto que interrompesse o processo de dor e no final nos tivéssemos recuperado dessa perda e conseguíssemos retomar a nossa vida sem lidar com as emoções dolorosas? Mas e se esse sono pudesse ter um efeito secundário que seria anular completamente todas as emoções que sentíssemos em relação a essa pessoa / luto / situação? Escolheríamos "dormir" correndo esse risco? É aqui que conhecemos um grupo de pessoas que não se conhecem, mas estão a caminho do Campo de Papoilas para lidar com um processo de perda. Todas estas personagens estão complexamente desenvolvidas e conectamo-nos com as dores de cada uma, o que nos envolve profundamente nesta leitura. Além disso, este livro acaba por ter uma das coisas que eu mais gosto de ler, como já disse várias vezes, que é estranhos a ajudarem-se uns aos outros, a forma como podemos salvar outra pessoa sem saber que o estamos a fazer. Todos eles, à medida que se vão conhecendo, vão mudando as suas percepções sobre si próprios e dei por mim muito emocionada em muitas situações e, ao mesmo tempo, a divertir-me bastante com as aventuras que todos têm a caminho do Campo de Papoilas no meio do deserto da Califórnia. Por outro lado, o livro traz-nos também toda a envolvência do projeto experimental que é o Campo de Papoilas e da sua fundadora e a forma como quem procura criar soluções gratuitas que ajudem as pessoas acaba a ser engolido pelos ideais de lucro e como é possível lucrar muito dinheiro com a dor. Leitura de verão perfeita porque se irão abstrair de tudo à vossa volta e vibrar com a viagem deste grupo em busca de um final feliz para si.

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Nikki Erlick (1990's) é uma escritora e editora americana. Trabalhou como escritora de viagens para jornais como o The New Yorker, Harper's Bazaar, Cosmopolitan e The Huffington Post,  o que a fez viajar pelo mundo inteiro. A Medida, o seu primeiro romance, tornou-se um bestseller imediato do New York Times e foi traduzido para 24 línguas. Este seu segundo romance estava na lista dos Goodreads Most Anticipated Books.
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Azul de Agosto

Contemporâneo / surreal

No início deste ano li este livro e fiquei obcecada pela Deborah Levy,  logo de seguida li a trilogia dela (a sua autobiografia viva em três volumes), e depois achei que agosto era o mês certo para vos sugerir este livro (sim, eu sei, um pouco piroso). Voltei a lê-lo agora em julho e, mesmo já sabendo a história, voltei a divertir-me bastante. Elsa é uma pianista famosa e esgotada, uma antiga criança prodígio que foi adoptada pelo seu professor para se tornar uma estrela, mas que colapsa a meio de um concerto e deixa de tocar, passando a dar aulas particulares a crianças ricas de diferentes partes da Europa. É aqui que começa esta viagem. Elsa está em Atenas e vê uma mulher que compra dois cavalos de madeira e entra numa paranóia de que aquela mulher é a sua sósia viva. Durante as suas viagens, continua a encontrar essa mulher sem saber se é real ou não. É um livro cheio de situações surreais (o chapéu da sósia que ela rouba e continua a usar em todo o lado) bastante divertidas e metáforas escondidas em detalhes aparentemente mundanos, como a questão do azul, que é a metáfora mais óbvia e que depois compreendem, sendo o azul uma cor de liberdade, mas também de tristeza, claro, estados em que Elsa vai alternando a sua própria existência. A parte que mais gostei neste romance foi precisamente todas as reflexões com que nos deixa: o papel do professor / pai; a vontade de saber quem era a mãe dela, mas a fuga a essa mesma vontade; a sósia com os cavalos e todas as outras sombras e ecos que surgem e que colocam Elsa em contacto com o seu passado reprimido e as memórias da infância; e como é que podemos voltar a recuperar todas as nossas partes (como o Orlanda de Jacquline Harpman) que fomos perdendo. Ao longo da leitura, a tensão e a sensação de alienação intensificam-se, sempre com a antecipação do presságio de ruptura que todas as viagens de autodescoberta proporcionam. É uma leitura surpreendentemente leve, apesar de abordar temas pesados, porque viajamos com a Elsa pelas cidades, pelas suas memórias, pelas interações e vivências que vai tendo com outras personagens, cheio de referências artísticas, de literatura, de música, e de situações caricatas, divertidas e intrigantes. Espero que gostem tanto quanto eu.


 

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Deborah Levy (1959) nasceu na África do Sul e começou a escrever para teatro nos anos 80, até ter passado para os romances em 1987. Foi nomeada duas vezes para o Prémio Goldsmiths e duas vezes para o Booker, e venceu o Prix Femina Etranger. Em 2013 começou a escrever uma autobiografia viva porque, nas suas palavras, «espero que não estejam a ser escritas no final, com o benefício da retrospetiva, mas sim no meio da tempestade da vida», e o The Guardian considerou-a um dos melhores 100 livros do século 21.
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A Insubmissa

Contemporâneo / autoficção

Foi com grande felicidade que vi que finalmente teríamos algo da Cristina Peri Rossi em Portugal pela Antígona e, mesmo sem ler, disse logo que queria trazer para o Book Gang, tal o meu entusiasmo. Este é um romance autobiográfico onde ela reconstrói os seus primeiros anos de vida a partir da idade adulta, sem alterar a lógica infantil, aquela tão curiosa, tão esquecida, que nos faz sorrir quando ouvimos uma menina falar e interpretar o mundo à sua maneira, e é através dessa visita ao passado que ela constrói a sua própria identidade como mulher e escritora. Gostei muito da forma como ela esbate a fronteira entre ficção e realidade, talvez tudo se refira mesmo à sua vida ou talvez esteja a contar como ficção tudo o que passou, a história da sua família, do pai, a relação dela com a mãe, a sua relação com os livros através daquele seu adorado tio solteiro, charmoso e misógino (e divertido, que dizia que não casava porque não queria ser corno), as suas descobertos enquanto criança e adolescente, como quando percebe que tem uma vagina e não um pénis, e acredita que também um lhe irá crescer porque nunca ouviu definir um rapaz pelo que lhe falta, só as raparigas. Nesta leitura vemos como Peri Rossi é uma mulher com uma sensibilidade requintada, delicada, viciante e única sobre a vida e o mundo que a rodeia. Só um pouco da sua história: ela é uma escritora, poetisa, tradutora e ativista, que se exilou em Espanha em 1972, ao fugir da ditadura no Uruguai que censurou a sua obra, palavras que resumem uma ínfima parte da sua personalidade mal-comportada, desobediente, muito insubmissa e inconformista, sempre pronta para questionar tudo e todos, mas aqui, contado por uma menina cheia de inocência, humor e curiosidade, que não consegue compreender uma infinidade de injustiças às quais os adultos preferem não responder. Espero que seja o primeiro de muitos livros da Peri Rossi em Portugal, que leitura arrebatadora. Leiam, leiam!

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Cristina Peri Rossi (1941) é uma escritora do Uruguai que foi obrigada a fugir e a exilar-se em Barcelona em 1972 após o golpe de Estado que censurou os seus livros. É a única mulher incluída dentro do chamado boom latino americano que incorpora nomes influentes da literatura dos anos 60 e 70  como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes. A Insubmissa foi o seu último trabalho, publicado em 2020, e marca a estreia da autora em português depois de quase 40 anos.
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Das mesmas autoras deste mês:

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Sally Diamond
A Medida
Estás no mood de repescar outros? Estes foram os mais vendidos em julho
Perde-se relógio de senhora
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Eu que não conheci os homens
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Leoas de Teerão
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