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Os livros de novembro


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Marquesa de Alorna

romance histórico / estreia da série na RTP

E este mês temos uma repetição porque decidi trazer novamente a Maria João Lopo de Carvalho para o Book Gang para celebrar esta grande conquista de 15 anos a lutar e finalmente o romance Marquesa de Alorna vai ter uma mini série que estreia este mês na RTP e depois irá para a Netflix. 

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Como sabem, eu li este livro há mais de dez anos, marcou-me mesmo muito e tornei-me fã da Maria João, tendo lido depois todos os outros históricos que ela publicou. Este romance retrata e tira do esquecimento a vida de Leonor, Alcipe, condessa d’Oeynhausen e por fim marquesa de Alorna, uma mulher que não se deixou definir apenas pelo seu estatuto social, pelo casamento ou pela maternidade, nem quebrou quando foi encerrada 18 anos no Convento de Chelas. Leonor era uma mulher instruída, culta, politicamente interessada, poeta e intelectualmente inquieta, que viveu num período de enormes transformações na Europa e que procurou sempre construir o seu próprio espaço, tendo aberto caminho a tantas outras mulheres. Esta leitura dá-nos também uma oportunidade para olharmos para a História de Portugal através de uma perspetiva feminina, percebendo como as mulheres viveram os acontecimentos políticos, sociais e culturais que tantas vezes nos são contados apenas através dos homens e, sobretudo, esta figura fascinante que desafiou as convenções muito antes de termos sequer linguagem para falar de emancipação feminina.

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Que bom, que bom que este livro vai ter esta mini série, que é também uma conquista na literatura portuguesa. O livro é também de leitura muito cativante e a Maria João vai prender-vos nas mais de 600 páginas. Exemplares autografados e têm uma sobrecapa da série por cima da capa original.

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Maria João Lopo de Carvalho (1962) é uma das escritoras mais prolíficas em Portugal com mais de 200 mil livros vendidos. Começou a sua atividade como professora, cronista de revistas nos anos 90 e em 2000 iniciou-se nos romances e nos livros infantis e juvenis. Em 2011 publicou o seu primeiro romance histórico Marquesa de Alorna, o que deu início a uma consistente carreira de romancista histórica. É precisamente esse romance que repesco agora para o Book Gang para celebrar a estreia da tão ansiada mini-série.
Marquesa de Alorna
AUTOGRAFADO

Limitado ao stock existente

Palavras Cruéis

contemporâneo / romance

Inicialmente foi uma leitura que rejeitei para o Book Gang (para verem como também sou muitas vezes condicionada pelos meus próprios juízos de valor) porque senti que era muito romance jovem-tiktok-mais-do-mesmo, mas depois li uma crítica internacional que achei piada e acabei por pegar nele. O que aconteceu é que vivi dois dias intensos em que li sem conseguir pousar até terminar e fiquei muito envolvida com o Parker Navarro (o escritor) e a Selina Chan (a crítica literária) e a jornada dos dois, quer pessoal, quer profissional e familiar (e também de saúde mental), como ambos vão sendo atraídos um para o outro e nós, leitores, acompanhamos aquilo que começa como uma rivalidade entre duas pessoas que parecem detestar-se e que vai dando lugar a uma relação muito mais complexa, em que a fronteira entre admiração, ressentimento, vulnerabilidade e desejo começa a ficar cada vez mais ténue.

 

Claro que gostei ainda mais por toda a crítica que faz ao mercado literário e como as redes sociais hoje em dia podem destruir um escritor ou um livro neste tribunal do viral onde as pessoas vão umas atrás das outras sem pensar por elas mesmas. A autora questiona também o lugar da crítica, a importância que atribuímos à opinião dos outros e a dificuldade de continuar a criar quando sentimos que estamos constantemente a ser avaliados.

 

Um romance sobre diferenças culturais, escritores, dramas literários, egos, ambição e a forma como uma opinião pode mudar a vida de alguém. Mas a mensagem base é importantíssima para os dias de hoje: se desligarmos as redes sociais, o impacto que isto tudo parece ter na nossa vida real é zero. E vale sempre a pena não nos esquecermos disso.

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Rioghnach Robinson (1990's) é de ascendência irlandesa e chinesa, cresceu na Carolina do Norte e estreou-se na literatura ainda antes de terminar a universidade em 2016. Trabalhou em meios de comunicação e nos últimos 10 anos publicou vários romances young adult sob o pseudónimo Riley Redgate. Este é o seu primeiro trabalho de ficção para adultos, o qual assinou com o verdadeiro nome. Vive em Nova Iorque.
Palavras Cruéis

Ovelhas Perdidas

contemporâneo / comédia familiar

Eu sabia que este livro seria tão, tão bom que o confirmei para o Book Gang mesmo antes de ler, tal foi a minha confiança. E na verdade foi ainda melhor do que estava à espera, a família Flynn é absolutamente disfuncional e o que vão ler é um romance de humor no meio do caos que a vida por vezes pode ser. E, aparentemente, os Flynn têm problemas suficientes para dar e vender.

 

O casamento de Bud e Catherine atravessa uma crise particularmente complicada, depois dela decidir experimentar uma relação aberta e dele decidir que se vai atirar de um penhasco, enquanto as três filhas tentam encontrar o seu lugar numa família em que os adultos parecem estar tão perdidos como elas. A mais velha namora com um homem mais velho cuja alcunha é Wes Crimes de Guerra, a do meio que todos ignoram anda a ter conversas perigosas na internet e a mais nova (a minha favorita) é uma adolescente brilhante e demasiado inteligente que está convencida de que existe uma conspiração a acontecer na cidade.

 

O que torna este romance arrebatador é a forma como a autora utiliza o humor e o absurdo para falar de questões reais: a crise da família tradicional, a parentalidade, a adolescência, a solidão e a dificuldade de crescer num mundo em que os adultos de hoje sentem-se tão desorientados quanto os jovens. Há aqui uma espécie de inversão de papéis interessante, porque os pais estão demasiado ocupados a tentar resolver as suas próprias crises existenciais enquanto as filhas procuram desesperadamente alguma estrutura e levam tudo até ao limite do caos.

 

O livro tem uma narrativa coral, com diferentes pontos de vista, uma pequena cidade, personagens secundários e vizinhos divertidos e uma grande comédia de costumes das famílias de hoje. Adorei, adorei, adorei.

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Madeline Cash  (1996) é uma escritora americana e cofundadora e editora da revista literária Forever Magazine. Estreou-se na ficção com uma coletânea de contos que recebeu o prémio PenCraft Fiction Award. Este ano, Ovelhas Perdidas, o seu primeiro romance, tornou-se um dos livros mais comentados e conquistou logo tradução para mais de vinte línguas.
Ovelhas Perdidas

A Arte de ser Heumann

biografia / estreia do filme na Apple TV

Que livro tão bom, tão importante, sobre esta mulher que conheci através da minha amiga Mafalda Ribeiro, também ela uma grande ativista. Judith Heumann foi uma das mais importantes ativistas pelos direitos das pessoas com deficiência e dedicou a sua vida a lutar por algo que deveria ser absolutamente básico: o direito de todas as pessoas a estudar, trabalhar, circular e participar na sociedade sem serem discriminadas.​ Esta sua biografia, escrita em conjunto com Kristen Joiner, traz-nos esta Judith criança que enfrentou uma sociedade que não estava preparada para a receber, chegaram a impedir a sua entrada numa escola por considerarem que a sua cadeira de rodas representava um perigo em caso de incêndio, e mais tarde também a impediram de trabalhar como professora. Judith não aceitou que outras pessoas decidissem aquilo que podia ou não fazer e levou o sistema escolar de Nova Iorque a tribunal, acabando por vencer. Esta seria apenas uma das muitas batalhas de uma vida dedicada ao ativismo.

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Mas ela não queria ser considerada uma inspiração por conseguir viver com uma deficiência, não queria elogios pela sua capacidade de ultrapassar obstáculos que nunca deveriam ter existido. Queria que esses obstáculos deixassem de existir e esta diferença é fundamental para percebermos o que significa verdadeiramente falar de inclusão. Tinha de trazer este livro porque acredito que a literatura também tem de servir para nos confrontar com aquilo que desconhecemos, para nos retirar da nossa própria experiência e nos ensinar a olhar para as lutas dos outros.

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Há ainda duas informações que quero destacar: este livro é publicado em Portugal pela nova editora Edições Access Lab, a primeira editora em Portugal dedicada exclusivamente a temas de deficiência, neurodivergência e surdez. E a adaptação em filme, que estreia este mês na Apple TV, destacou-se pelo compromisso com a inclusão, trazendo o maior elenco de atores com deficiência da história de Hollywood para garantir a autenticidade das representações.

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Um livro que devorei e que me emocionou em muitos momentos pela força inabalavel desta mulher que passou a vida a lutar para que ninguém tivesse de pedir autorização para simplesmente existir.

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Judy Heumann (1947-2023) foi uma ativista norte-americana, reconhecida internacionalmente como uma das figuras mais importantes do movimento pelos direitos das pessoas com deficiência. Trabalhou nas administrações de Bill Clinton e Barack Obama, foi consultora do Banco Mundial e cofundou o World Institute on Disability. Em 2020, publicou, com Kristen Joiner, as suas memórias, agora traduzidas para português, e em breve em filme. O seu legado transformou a luta pela inclusão numa questão de direitos humanos e justiça social.
A arte de ser Heumann

Metade da Idade Dele

contemporâneo / romance

Este mês posso finalmente repescar este livro que de-vo-rei no verão, da autora do nosso primeiro Blind Date (lembram-se? O Ainda Bem que a Minha Mãe Morreu). E depois do sucesso estrondoso do outro, a sua autobiografia, estava muito curiosa para ver se ela conseguiria dar o salto para a ficção e a resposta é este romance que não podia ser mais desconfortável e provocador, o que, claro, adorei, porque é mesmo o tipo de leituras que gosto de vos trazer.

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Waldo é uma adolescente de dezassete anos que vive no Alasca e que desenvolve uma obsessão pelo seu professor de escrita criativa, um homem de quarenta anos, casado e com um filho. Aquilo que começa como uma paixoneta acaba por transformar-se numa relação sexual que vai expor as diferenças de idade, experiência, poder e expectativas entre os dois. O que me interessou particularmente neste livro foi a forma como aborda o desejo feminino sem o tentar tornar simpático, bonito ou moralmente aceitável, mas também nos obriga a olhar para a desigualdade de poder que existe numa relação entre uma adolescente e um adulto que se aproveita dessa vulnerabilidade. 

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Este livro traz ainda a solidão feminina e a necessidade de sermos escolhidas. Quantas vezes confundimos atenção com amor e desejo com intimidade? Mas a autora dá-nos esta protagonista impulsiva sem nunca a tornar numa vítima perfeita, o que provavelmente é o que torna este romance desconfortável e um grande divisor de opiniões. 

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Mas já sabem, eu gosto muito de livros que não nos entregam personagens exemplares, mas pessoas cheias de falhas e contradições que nos obrigam a pensar para lá daquilo que é certo ou errado. Adorei!

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Jennette McCurdy (1992) é uma antiga atriz infantil americana que se tornou um fenómeno internacional com a sua autobiografia Ainda Bem que a Minha Mãe Morreu sobre a infância passada sob o controlo de uma mãe abusiva e a pressão de crescer na indústria do entretenimento. O livro vendeu mais de 4 milhões e foi publicado em mais de 30 países. Este ano estreou-se na ficção com este romance, conquistando por fim uma carreira na literatura.
Metade da Idade dele

Das mesmas autoras deste mês:

Ainda bem que a minha mãe
As Revolucionárias
Estás no mood de repescar outros?
Estes foram os mais vendidos em outubro
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A insubmissa
A correspondente
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Sou uma multidão
Terra delas
Azul de Agosto
Sociedade Secreta de Livros
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