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Porque grandes histórias mudam o mundo

Escolhemos todos os meses leituras que nos fazem refletir, que nos ensinam, divirtem mas, acima de tudo, que elevam as vozes das mulheres. Acreditamos no poder dos livros para nos ensinar sobre o mundo através das histórias.

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Os livros de abril


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A Sociedade Secreta dos Livros

Histórico / autora residente no Book Gang

Depois de A Última Livraria de Londres, Uma Espia Americana em Lisboa e A Biblioteca dos Amantes de Livros, os três passados na 

época da II Guerra Mundial, neste novo romance viajamos até à época vitoriana e à alta sociedade londrina e o que temos é um retrato da forma como algumas das mulheres das camadas mais altas da sociedade eram tratadas nos seus casamentos e nas suas comunidades, controladas por homens dominadores e, muitas vezes, subjugadas nos seus próprios lares. As mulheres que não se conformavam eram enviadas para manicómios ou instituições psiquiátricas. É neste cenário que conhecemos um grupo de mulheres que recebe um convite inusitado para se juntarem à Sociedade Secreta dos Livros, enviado por Lady Duxbury. É neste espaço de intimidade e liberdade para serem elas mesmas (e lerem o que quiserem) que as vidas delas se vão transformando, o medo substituído por coragem e a solidão por uma amizade sólida entre todas, é através desta relação que criam umas com as outras que encontram formas de lidar com as suas vidas. Uma leitura imersiva e emocionante sobre o poder dos livros, das amizades femininas e a busca por liberdade. Gostei muito!
 

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Madeline Martin (1980) escreve há mais de 20 anos e começou por publicar romances de forma independente, mas foram os seus romances históricos que lhe deram a oportunidade de deixar o emprego e dedicar-se à escrita ao tornarem-se best-sellers do New York Times e do USA Today. Vive na Flórida e é uma autora residente no Book Gang.
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Como caminhar num Pântano

Contemporâneo / autora portuguesa

Que maravilha que foi ler este romance da Marta e voltar ao seu estilo de escrita que já tinha experienciado em Escavadoras, o seu primeiro romance, mas aqui numa narradora peculiar e ligeiramente desnorteada, como eu tanto gosto, cujo hábito é roubar malas de mulher para lhes libertar o peso das mãos porque ser mulher é isto — andar sempre com as mãos ocupadas a carregar alguma coisa. Ao longo dos capítulos, que correspondem a pequenas entradas diárias onde a narradora vai refletindo sobre os mais variados temas e experiências do seu passado e presente, vamos começando a compreender um desinteresse gradual pela vida. Eu diria que é um livro sobre saúde mental, embora isso nunca esteja explícito, é um livro sobre encontrar alguma coisa que nos crie amarras, mas ao mesmo tempo é uma narradora com um sentido de humor que me deliciou, uma narradora que para o carro no meio de uma rotunda e provoca um acidente em cadeia porque apenas queria sentir o sol no rosto, que calça galochas e atira-se para uma poça de lama para poder sentir liberdade. Há traumas e memórias antigas que ela (a Marta, a narradora) vai libertando (para ela e para nós, leitores) ao longo das suas meditações sobre o quotidiano e que se cruza com uma série de outras pessoas de quem pouco sabemos, apenas o que deixaram nas memórias dela. A salvação está em nós, diria eu, encontrarmos uma forma de lidar com a nossa singularidade. Mais uma autora portuguesa que vos convido a descobrir e espero que gostem tanto quanto eu gostei.

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Marta Pais Oliveira (1990) vive no Porto e escreve ficção, poesia e textos de ópera e teatro, o seu romance de estreia venceu o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís. Este romance Como Caminhar num Pântano venceu o Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho.
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Um chapéu de Leopardo

saúde mental / autora francesa / novella

Gostei tanto deste livro diferente de tudo o que já tinha lido e que é a  história de uma relação intensa entre o "Narrador" e uma amiga de infância, Fanny, que sofre de profundos distúrbios mentais, e as suas experiências ao continuar a ajudar Fanny nos dias bons e maus ao longo de mais de duas décadas. Baseando-se na relação com a sua irmã mais nova, que faleceu prematuramente, este livro é uma colagem de vinhetas (muito ao género de Aquilo em que Preferia não Pensar que lemos em Novembro de 2025) para criar um retrato desta personagem Fanny e sobre o profundo desejo do Narrador de a compreender. E é uma narração um pouco excêntrica, o que eu gostei, porque é escrito na terceira pessoa, o Narrador não é propriamente o narrador, como se fosse a autora a ver-se a si própria a escrever sobre a sua irmã, achei lindíssimo! Ao longo da leitura, vamos refletindo nas lutas com a saúde mental, mas também sobre este amor que tenta manter os dois unidos — o Narrador, que está preso no papel da amigo vigilante, firme e de confiança, e Fanny, que com dificuldade consegue manter uma aparência de estabilidade. Desta forma, ela é uma amiga querida, desde a infância, mas também, implacavelmente, uma estranha, apesar da sua proximidade ao Narrador. Ele preocupa-se com Fanny, mas também se sente preso do lado de fora, querendo olhar para dentro, mas encontrando o vidro embaciado, o que é a forma mais prática e bela de se tentar relacionar com a doença mental de alguém que amamos.​​ Maravilhosamente introspectivo, é um belo testemunho da vida e do amor duradouro no meio das dores da doença mental.

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Anne Serre (1960) é uma escritora francesa com dezoito livros publicados, em 2020 recebeu o Prémio Goncourt, um dos pais desejados em França. Em 2025, a tradução inglesa de Um Chapéu de Leopardo, que a autora escreveu em 2008 após a morte da irmã, foi finalista do International Booker Prize.
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Elena Sabe

Contemporâneo / autora argentina

Este foi um livro que me abalou profundamente e que inicialmente pensei que seria uma espécie de policial / mistério, mas que se transformou numa reflexão visceral sobre o luto, a doença e a perda de liberdade e autonomia. Com a estrutura de um policial sombrio, este romance curto, mas avassaladoramente poderoso, acompanha Elena, uma mulher que sofre de Parkinson gravemente debilitante, ao longo de um dia, enquanto tenta resolver a trágica morte da sua filha. Considerada um suicídio pela polícia quando é encontrada enforcada num sino de igreja, Elena acredita que não, a sua filha foi assassinada. O problema é que Elena só consegue mexer-se durante breves períodos de tempo quando toma a medicação e acompanhamos a sua luta nesse dia para se conseguir deslocar até à casa da mulher que, acredita ela, a irá ajudar a encontrar o criminoso. A narrativa alterna entre esse único dia e flashbacks de Elena da sua vida, da vida da filha, da relação entre as duas nem sempre feliz. Brutalmente honesto e direto, este livro é uma crítica à sociedade que priva as mulheres de autonomia corporal e desumaniza as pessoas com deficiência e, apesar de não acontecer grande coisa — Elena atravessa a cidade para se dirigir à casa dessa mulher —, há uma tensão e um mistério que nos mantém presos até ao fim. Senti que este livro traz ainda uma reflexão da forma como tratamos os nossos pais na velhice e também do trabalho de cuidador, silencioso e muitas vezes solitário e incompreendido. Chorei, emocionei-me, um livro ousado e sombrio, mas importante.

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Claudia Piñeiro (1960) nasceu em Buenos Aires, é escritora, dramaturga, guionista de televisão e uma das escritoras argentinas mais traduzidas. Venceu vários prémios literários com os seus livros, tem várias adaptações cinematográficas e a tradução deste Elena Sabe para o inglês foi finalista do International Booker Prize e tem também um filme na Netflix.
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Debaixo de Água

2 linhas temporais / contemporâneo

Menon escreve sobre o trauma e o luto tal como se pensa nele, de forma recorrente, não linear, de todos os ângulos ao mesmo tempo. Mas não é apenas uma história de perda, é também sobre como se continua a viver quando nada é mais como antes. E a sociedade entende o luto de um pai, de um filho, de um familiar, de um conjugue, mas não se ensina sobre a morte de um amigo, a sociedade não vê a amizade como uma relação principal na vida de alguém e que pode ser mais importante que uma relação romântica. Marissa é uma mulher destroçada após a perda da sua melhor amiga aos 16 anos e a autora centra este livro em torno de dois dos desastres naturais mais catastróficos deste século, o tsunami da Tailândia em 2004, quando a sua melhor amiga morreu, e o furacão Sandy de 2012, ambos vividos pela personagem em primeira mão. Em 2004, ela vive na Tailândia com o pai, que é investigador marinho, e Marissa tem uma vida idílica, passa os dias com Arielle dentro do mar e a autora dá-nos a conhecer a vida marinha da ilha e a beleza da natureza, esta linha temporal persiste durante o tsunami e no período que se segue, é um relato do desastre tão cru, tão absolutamente devastador, chorei desde esse ponto da história até ao fim. Na linha temporal posterior, Marissa vive sozinha em Nova Iorque e é uma sombra da alma vibrante que costumava ser e só ao longo da leitura compreendemos realmente o que ela viu e viveu e à medida que o furacão Sandy se aproxima, as suas memórias mais dolorosas voltam à tona. Os temas centrais do luto, do Stress Pós-Traumático, da amizade e da resiliência da natureza perante um desastre natural foram tratados com sensibilidade. É um romance de estreia absolutamente assombroso, vai ficar comigo durante muito tempo.

 

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Tara Menon (1980s/90s) nasceu na Índia, cresceu em Singapura e viveu uma década em Nova Iorque enquanto estudava, atualmente é professora assistente no Departamento de Inglês da Universidade de Harvard e co-edita o segmento literário do Public Books. Este é o seu romance de estreia e os direitos foram vendidos para 32 línguas.
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Três livros extra da minha biblioteca pessoal + uma novela gráfica + dois livros da Clarice Lispector para a coleção

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Da mesma autora deste mês:
Estás no mood de repescar outros? Estes foram os mais vendidos em março
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