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Porque grandes histórias mudam o mundo

Escolhemos todos os meses leituras que nos fazem refletir, que nos ensinam, divirtem mas, acima de tudo, que elevam as vozes das mulheres. Acreditamos no poder dos livros para nos ensinar sobre o mundo através das histórias.

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Os livros de junho


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Yesteryear

contemporâneo & histórico ao mesmo tempo

Num mês raro — porque raramente faço isto — não li este livro para ler em conjunto com vocês. Por ser um romance que se tornou nas últimas semanas um fenómeno de vendas internacional, havendo quem ame e quem odeie, com tanta intensidade, achei que seria uma opção interessante para o descobrirmos juntas. Vamos ler?

Caro Claire Burke (1985) é coapresentadora do podcast de política e cultura Diabolical Lies. Este é o seu romance de estreia que se tornou um fenómeno quando Anne Hathaway o adquiriu para filme ainda antes do seu lançamento.
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Uma Porta de Vidro entre o Céu e o Inferno

Contemporâneo / autora portuguesa

E a autora portuguesa deste mês é a Susana Piedade com este seu novo romance. Eu já a queria trazer para o Book Gang, e antes de saber que este livro estava para sair tinha pensado em colocar o seu Três Mulheres no Beiral, de que gostei muito, mas este que é o quarto romance da Susana é uma leitura emocionante e humana sobre um leque de pessoas cujas vidas se entrelaçam na Praceta das Tílias, um retrato infelizmente já tão normalizado dos dias de hoje em que pouco ou nada sabemos das vidas dos nossos vizinhos do lado. Ao longo da leitura vamos conhecer a Esmeralda e a filha Teresa, cujo segredo vai desmoronar aquela família, a pequena Olívia que desenha o mundo que observa, sobretudo a vizinha na janela, que é Teresa, e o pai Sebastião, um taxista que um dia salva Lúcia de um ataque violento na rua que a deixa com graves sequelas psicológicas. Cada uma destas pessoas tem uma voz muito própria, cada uma delas a lidar com dores muito particulares que são, ao mesmo tempo, universais, mas acresce uma particularidade: cada pessoa lida com a dor e o trauma de forma individual e a Susana tece estas emoções e este sofrimento com um olhar de empatia. E depois no fim, tomem atenção, a Susana escreve: até que a porta se abriu. A porta abre-se involuntariamente (e mais não digo), deixando que cada leitor interprete que amanhã chegará à Pracetas das Tílias. Uma leitura impactante! Leiam a Susana!

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Susana Piedade (1972) vive no Porto e formou-se em Ciências da Comunicação. Estreou-se na literatura com As Histórias Que não Se Contam, finalista do Prémio LeYa em 2015 e Três Mulheres no Beiral foi também finalista em 2021. Este é o seu quarto romance.
Uma porta de vidro entre o céu e o inferno

Continuo à espera de que me peçam desculpa

contemporâneo / feminista

Este foi um livro que li no ano passado, um dos meus favoritos do ano, que cheguei a destacar num post que fiz com algumas das leituras que mais me impactaram e estava com muita vontade de colocar no Book Gang, porque creio que terá passado muito despercebido em Portugal. O que me fascinou neste livro é que mistura ficção e realidade, através de Anna, a protagonista, que reflete em muitos temas atuais, misturando escritores, notícias, histórias e episódios reais do mundo com as personagens, pelo que a dada altura esquecia-me de que estava a ler um romance. Anna é professora e trabalha na rádio, discute com os seus alunos o legado do #MeToo, amadurecendo juntamente com eles uma série de ideias como o consentimento, o assédio, a liberdade sexual, entre outras, estas discussões com os alunos são extraordinárias e foram das minhas partes favoritas de ler porque nós, leitores, vamos refletindo com os alunos, vamo-nos questionando, concordando ou discordando, mas são estas discussões que nos enriquecem. Mas Anna é também uma mulher que foi abusada aos onze anos pelo professor, e a partir deste trauma infantil tornou-se vítima do instinto de agradar, ou pelo menos de não desagradar os homens, questionando ela própria se tem o direito de se considerar uma vítima se é ela que provoca as situações — e até que ponto liberdade sexual se tornou agora assédio?, tudo é assédio? É uma leitura cativante, cheia de personagens interessantes, que educa os leitores para o consentimento e explora uma série de ideias atuais sobre a cultura da violação. Leiam, leiam, leiam!

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Michela Marzano (1970) é uma filósofa e escritora italiana que se estreou na literatura contemporânea em 2011, depois de anos publicar ensaios académicos. Vive em Paris desde 1999, onde dá aulas na Sorbonne. Entre os seus temas de investigação destaca-se o corpo e a ética sexual, onde tem discutido ativamente sobre o corpo das mulheres e como este se tornou um campo de batalha público, temas que abrangem os seus trabalhos literários, como este romance agora no Book Gang.
Continuo à espera de que me peçam desculpa

A Linguagem dos Desastres

contemporâneo

Que maravilha que foi descobrir a Fabiane Guimarães, uma das vozes mais originais da nova literatura brasileira, nesta história onde o intimo e o apocalíptico se confundem. Passado em Brasília, uma cidade com eventos climáticos extremos como secas prolongadas, incêndios e longos períodos de apagões, este livro cria um cenário distópico que na verdade já não é tão distópico assim. É numa noite de apagão que Catarina nasce, uma criança que desde cedo demonstra ter uma sensibilidade fora do comum e que cresce obcecada com cartas de tarot numa infância muito solitária, onde vai ficando cada vez mais próxima de Augusto, o filho de uma vizinha, uma criança problemática e maldosa. Catarina nasceu no escuro, mas parece ser a única a ver a luz de todos. Conhecemos também a mãe, uma pintora que tenta traduzir o que a rodeia em arte e que, depois de um grande sucesso, deixa tudo para se dedicar à família, e o pai. um bancário pragmático e em tudo oposto à arte, quer da mulher, quer da filha. A história desenrola-se ao longo do crescimento de Catarina e de Augusto e os caminhos diferentes que os dois tomam, tendo sempre como pano de fundo as catástrofes ambientais que impactam o quotidiano banal de todos nós, a questão que fica é: como será a nossa linguagem nesta era em que vivemos rodeados de desastres? Adorei a personagem da Catarina e toda a sua envolvência com o tarot e o misticismo, as vozes que lhe sussurram coisas aos ouvidos, e que nos lembra, de certa forma, a pequena Clara de Isabel Allende, ou talvez só pensei nisso porque enquanto lia o livro estava também a ver a série A Casa dos Espíritos que estreou agora na Prime. Nem todos ouvimos vozes, mas todos temos a nossa intuição, esse sim um grande fogo dentro de nós. Recomendo muito, muito, muito!

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Fabiane Guimarães (1991) nasceu em Goiás, no Brasil e formou-se em Jornalismo. Estreou-se na literatura com o romance Apague a Luz se For Chorar (2021), seguido de Como se Fosse Um Monstro (2023), com os quais foi indicada para os prémios São Paulo de Literatura, Candango e Jabuti. Este é o seu terceiro romance e a sua estreia em Portugal. Podem lê-la no seu substack Tristezas de Estimação.
A linguagem dos desastres

Tudo na Natureza apenas Continua

Não ficção / Vencedor do Pulitzer 2026

Vou já confessar — este era para ter sido um dos livros de Fevereiro, mas acabou por ficar de fora porque não ia chegar a tempo do envio das subscrições. E todos os meses pensava que o queria trazer, mas ia encaixando outras novidades e este foi ficando em espera. E este mês, em que não houve mais nenhuma novidade a encantar-me, posso finalmente falar-vos, recomendar-vos, gritar-vos para lerem este livro. Nem de propósito, foi há uns dias o vencedor do Pulitzer na categoria de não-ficção e livros de memórias. Este livro é a estreia de Yiyun Li em Portugal, mas a autora tem uma série de romances e não-ficção e já venceu inúmeros prémios pelos seus trabalhos. Este é um livro de memórias sobre a morte dos seus filhos Vincent e James, ambos tiraram as próprias vidas, um em 2017 aos 16 anos e outro em 2024 aos 19 anos, e uma reflexão sobre as formas como as palavras falham, mas continuam a ser necessárias para sairmos dos abismos em que possamos viver. Yiyun Li é sobrevivente de um trauma extremo e não embeleza a depressão nem a dor, ela fala da aceitação radical com lucidez e empatia, e fala sobretudo com o leitor com simplicidade e sobre como honrar a dor de outra pessoa. Eu sei que este é um tema pesado, mas todos iremos passar por ele, este é um testemunho arrebatador sobre viver com a dor do luto que persistirá todos os dias e encontrar aceitação nessa dor, mesmo sem a conseguirmos compreender — acrescento que Yiyun Li também tentou o suicídio duas vezes em 2012, altura em que perdeu o interesse em escrever ficção, talvez por isso escreva com uma aceitação que nos parece estranha no nosso vocabulário habitual de luto e pesar, tal como ela diz: a sua tristeza não é um fardo, refletir na natureza da vida, onde tudo vive e tudo morre, foi a sua forma de encarar a dor. Leitura arrebatadora!

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Yiyun Li (1972) nasceu na China, mas mudou-se para os EUA em 1996, onde é professora de Literatura e Escrita na Universidade de Princeton. Publicou coletâneas de contos e romances, pelos quais ganhou vários prémios prestigiados e nomeações, mas passou a escrever apenas não-ficção após as várias situações traumáticas que viveu. Este é o seu último livro de memórias, que acaba de ganhar o Pulitzer e marca a estreia da autora em Portugal.
Tudo na natureza apenas continua
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Sociedade Secreta de Livros
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Eu que não conheci os homens
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