É BOM PORQUE
E a autora portuguesa deste mês é a Paola D'Agostino, que não é bem portuguesa porque nasceu em Itália, mas vive em Lisboa há mais de 20 anos e considera-se já muito portuguesa. Este é um livro de memórias absolutamente arrebatador que me foi tão recomendado por uma amiga que, depois de tanto me chatear para o ler, acabei por o fazer e ainda nem ia a meio da leitura e já sabia que queria trazer para o Book Gang.
A mãe da autora engravidou enquanto lutava contra um cancro e realizava quimioterapia. Face ao dilema de interromper a gravidez para continuar os tratamentos ou parar tudo para levar a gravidez por diante, a mãe, uma italiana católica nos anos 70, não hesitou: queria dar à luz aquela filha. E esta filha cresce com a revolta, a culpa e a dor de que, para ela nascer, a mãe teve de morrer. Como é que uma filha sem mãe aprende a viver com a palavra mãe?
Este livro talvez possa ser lido como uma tentativa de resgate da figura materna, mas também uma reconstrução da vida da mulher com quem Paola só coincidiu no tempo e no espaço durante 150 semanas, como ela o escreve. Temos também uma viagem ao passado das vidas da mãe e do pai da Paola e uma contextualização histórica que nos faz embrenhar nestas memórias e neste diálogo com o leitor que se sente também ele um confidente e ouvinte desta reflexão tão íntima.
Mudar-se para Portugal foi também uma forma de, através de uma outra língua, fazer uma purga dessa palavra mãe. Uma leitura intensa, de levar às lagrimas, que pequena delícia esta que a Paola nos deixa.
Ocupação da Mãe de Paola D'Agostino
PONTOS A FAVOR
🗣️ Incentivo ao diálogo: luto, maternidade, crescimento, família, relação mãe e filha
📝 É um não ficção / livro de memórias
🥰 Emocionante e avassalador
🇵🇹 Autora italiana, mas vive em Portugal há 20 anos e considera-se já portuguesa ;)
SINOPSE
Uma mãe troca a sua vida pela vida da filha. Uma história a que a filha regressa, cinquenta anos depois. Durante décadas, este episódio permaneceu silenciado.
No Sul de Itália, na década de 1970, uma mulher gravemente doente engravida, e tem de tomar uma decisão drástica: continuar a tratar-se para sobreviver, ou interromper os tratamentos para dar à luz. O caminho que ela escolhe é condição de existência deste livro. Em Ocupação da Mãe, Paola D’Agostino procura forjar uma língua partilhada entre mãe e filha, para construir a narrativa de um laço que nunca chegou a existir.
Face à ausência da voz da mãe, face ao silêncio instalado depois da sua morte, a autora cultiva a escuta e a contemplação. Coloca o ouvido na terra, procurando discernir o rumor surdo que a atravessa e unir pontos invisíveis da sua própria vida. Observa, como se perante uma fotografia, a condição feminina numa sociedade católica, conservadora, patriarcal, onde as escolhas são limitadas e os sonhos de liberdade, infindos.
Se não tivermos conhecido a nossa mãe, talvez nos falte para sempre uma língua materna, ou talvez fiquemos numa travessia sem começo nem fim. Este é um livro que põe em cena o desejo primordial de pertença e, paradoxalmente, o impulso permanente de mudança. A travessia, afinal, é contra o esquecimento.
