É BOM PORQUE
Neste Matamos Stella, que é uma novela, a Antígona reuniu em livro a melhor ficção curta que Marlen Haushofer escreveu entre 1956 e 1968.
O livro abre com a novela que lhe dá o título, onde sozinha em casa durante o fim de semana, enquanto o marido e os dois filhos visitam os sogros, Anna, a narradora, reflete em como a chegada de Stella, a filha adolescente de uma amiga, para viver com eles perturbou ainda mais o delicado equilíbrio do seu lar. Da janela, observa o jardim e um pequeno pássaro preso na tília, enquanto tenta lidar com Richard, o marido que salta de relação extraconjugal para outra, com o comportamento cada vez mais sombrio do filho e com o alheamento da filha em relação a tudo à sua volta.
Mas é Stella quem mais a perturba: uma adolescente perdida e vulnerável cujo destino tem um fim repentino e desastroso — a sua morte é-nos logo dada a conhecer no início da novela, desenrolando depois todos os «porquês» e os «como». Entre o horror doméstico e a atmosfera claustrofóbica do ambiente gótico, esta é uma leitura lenta que nos conduz a uma conclusão perturbadora onde a autora retoma alguns dos temas centrais do seu famoso A Parede, explorando o isolamento, a violência e a fragilidade das relações humanas.
Além desta novela que ocupa a primeira parte do livro, irão ler alguns dos seus outros contos que têm na sua base reflexões sobre o adultério, a hipocrisia social, os casamentos sufocantes, a crueldade do ser humano, o horror do quotidiano e a sociedade de aparências, temas que mais de cinquenta anos depois continuam universais e intemporais.
O livro A Parede foi um dos meus favoritos no ano passado e li este novo livro da autora sem parar, envolvida nas histórias e embrenhada nos ambientes claustrofóbicos. Arrebatador, emocionante e perturbador!
Matamos Stella e Outros Contos de Marlen Haushofer
PONTOS A FAVOR
🗣️ Incentivo ao diálogo: adultério, hipocrisia social, casamentos sufocantes, quotidiano, isolamento
❤️ Uma novela + vários contos
📚 Autora residente no Book Gang
🇦🇹 Autora austríaca
SINOPSE
Matamos Stella reúne a melhor ficção breve de Marlen Haushofer. Perfeita amostra dos temas obsidiantes na obra da autora — a hipocrisia social (Tarte crumble e café com leite), vidas encurraladas (I’ll be glad when you’re dead), crueldades impossíveis (Miúdos), traumas da guerra (Uma Lealdade Terrível e Os Willows) —, abre com a novela cativante sobre culpa sem possibilidade de perdão que dá o título a este volume.
Matamos Stella (1958) é a confissão de uma mulher cuja vida é perturbada pela chegada de uma jovem ao seio familiar. Entre o fascínio e a repulsa, esboça-se um crime colectivo, um retrato claustrofóbico de um matrimónio e, acima de tudo, uma alegoria sobre a passividade opressiva e letal numa sociedade de aparências.
