É BOM PORQUE
No início deste ano li este livro e fiquei obcecada pela Deborah Levy, logo de seguida li a trilogia dela (a sua autobiografia viva em três volumes), e depois achei que agosto era o mês certo para vos sugerir este livro (sim, eu sei, um pouco piroso). Voltei a lê-lo agora em julho e, mesmo já sabendo a história, voltei a divertir-me bastante.
Elsa é uma pianista famosa e esgotada, uma antiga criança prodígio que foi adoptada pelo seu professor para se tornar uma estrela, mas que colapsa a meio de um concerto e deixa de tocar, passando a dar aulas particulares a crianças ricas de diferentes partes da Europa. É aqui que começa esta viagem. Elsa está em Atenas e vê uma mulher que compra dois cavalos de madeira e entra numa paranóia de que aquela mulher é a sua sósia viva. Durante as suas viagens, continua a encontrar essa mulher sem saber se é real ou não.
É um livro cheio de situações surreais (o chapéu da sósia que ela rouba e continua a usar em todo o lado) bastante divertidas e metáforas escondidas em detalhes aparentemente mundanos, como a questão do azul, que é a metáfora mais óbvia e que depois compreendem, sendo o azul uma cor de liberdade, mas também de tristeza, claro, estados em que Elsa vai alternando a sua própria existência.
A parte que mais gostei neste romance foi precisamente todas as reflexões com que nos deixa: o papel do professor / pai; a vontade de saber quem era a mãe dela, mas a fuga a essa mesma vontade; a sósia com os cavalos e todas as outras sombras e ecos que surgem e que colocam Elsa em contacto com o seu passado reprimido e as memórias da infância; e como é que podemos voltar a recuperar todas as nossas partes (como o Orlanda de Jacquline Harpman) que fomos perdendo.
Ao longo da leitura, a tensão e a sensação de alienação intensificam-se, sempre com a antecipação do presságio de ruptura que todas as viagens de autodescoberta proporcionam. É uma leitura surpreendentemente leve, apesar de abordar temas pesados, porque viajamos com a Elsa pelas cidades, pelas suas memórias, pelas interações e vivências que vai tendo com outras personagens, cheio de referências artísticas, de literatura, de música, e de situações caricatas, divertidas e intrigantes. Espero que gostem tanto quanto eu.
Azul de Agosto de Deborah Levy
PONTOS A FAVOR
🗣️ Incentivo ao diálogo: abandono, solidão, luto, pressão artística, saúde mental
❤️ Passado em várias cidades
🎼 Relação com a arte
🇿🇦 Autora da África do Sul
SINOPSE
No auge da carreira, a pianista Elsa M. Anderson abandona o palco em Viena, a meio de uma atuação.
Mais tarde, em Atenas, detém-se a observar uma mulher estranhamente familiar a comprar um par de cavalos mecânicos numa feira da ladra. Elsa também quer cavalos como aqueles, mas já não há mais, e vagueia até ao porto, onde apanhará o ferry para ser uma efémera professora de piano, fugindo do seu talento e da sua história. Assim começa uma viagem pela Europa, perseguida por uma mulher que parece sua a doppelgänger.
Um retrato deslumbrante de melancolia e metamorfose, Azul de Agosto, de Deborah Levy, revela as formas como tentamos reviver as nossas histórias antigas e como procuramos reinventar-nos através delas.
