É BOM PORQUE
Que maravilha que foi descobrir a Fabiane Guimarães, uma das vozes mais originais da nova literatura brasileira, nesta história onde o intimo e o apocalíptico se confundem. Passado em Brasília, uma cidade com eventos climáticos extremos como secas prolongadas, incêndios e longos períodos de apagões, este livro cria um cenário distópico que na verdade já não é tão distópico assim.
É numa noite de apagão que Catarina nasce, uma criança que desde cedo demonstra ter uma sensibilidade fora do comum e que cresce obcecada com cartas de tarot numa infância muito solitária, onde vai ficando cada vez mais próxima de Augusto, o filho de uma vizinha, uma criança problemática e maldosa. Catarina nasceu no escuro, mas parece ser a única a ver a luz de todos. Conhecemos também a mãe, uma pintora que tenta traduzir o que a rodeia em arte e que, depois de um grande sucesso, deixa tudo para se dedicar à família, e o pai. um bancário pragmático e em tudo oposto à arte, quer da mulher, quer da filha.
A história desenrola-se ao longo do crescimento de Catarina e de Augusto e os caminhos diferentes que os dois tomam, tendo sempre como pano de fundo as catástrofes ambientais que impactam o quotidiano banal de todos nós, a questão que fica é: como será a nossa linguagem nesta era em que vivemos rodeados de desastres?
Adorei a personagem da Catarina e toda a sua envolvência com o tarot e o misticismo, as vozes que lhe sussurram coisas aos ouvidos, e que nos lembra, de certa forma, a pequena Clara de Isabel Allende, ou talvez só pensei nisso porque enquanto lia o livro estava também a ver a série A Casa dos Espíritos que estreou agora na Prime. Nem todos ouvimos vozes, mas todos temos a nossa intuição, esse sim um grande fogo dentro de nós. Recomendo muito, muito, muito!
A Linguagem dos Desastres de Fabiane Guimarães
PONTOS A FAVOR
🗣️ Incentivo ao diálogo: solidão, família, abandono, trauma, alterações climáticas, misticismo
🥹 Personagem que faz lembrar a pequena Clara de A Casa dos Espíritos de Isabel Allende
🏆 Nomeada para os prémios São Paulo de Literatura, Candango e Jabuti
🇧🇷 Autora do Brasil
SINOPSE
«Fabiane Guimarães é a Isabel Allende do cerrado brasileiro.»
Raphael MontesCatarina veio ao mundo no exato momento em que a luz falhou. Como se fosse um presságio, os anos seguintes foram marcados pela violência da Natureza: depois dos sucessivos apagões, foi a vez do calor desmedido; quando a chuva começou, por fim, a cair dos céus, nunca mais parou e vieram as cheias.
Em casa, Catarina cresce rodeada de amor e cuidado - mas com dificuldade em se ligar ao mundo lá fora. Aos dez anos, a descoberta de um velho baralho de tarô revela-lhe um segredo: ela é capaz de ouvir o futuro. «Não é de ver?», pergunta-lhe o pai. Não, não se pode ver o que ainda não aconteceu.
É assim que Catarina pressente a chegada de Augusto. Em pouco tempo, tornam-se inseparáveis - duas crianças à procura de abrigo encontram-se uma na outra. Só que o abandono que molda o crescimento de Augusto infiltra-se na relação como uma doença que não dá sinais até ser tarde de mais. E, quando afeto e crueldade convivem lado a lado, raramente há salvação.
